Porque analistas, jornalistas, colunistas e quaisquer especialistas são incapazes de alcançar o sentido do levante que experimentamos hoje nas terras da Pindorama (que havemos de renomear), terras que se encontram sob ocupação do Estado brasileiro

Ilana

BeFunky_null_1.pngPorque a negação da não-vida, negação do domínio da ordem das coisas só pode ser luta e festa se se recusa a se converter em instituição, em programa, em partido! Autogestão generalizada da vida contra o mercado e o Estado. Eis o que pode ser o programa da crítica prática do mundo feita pelxs vândalxs e baderneirxs . Escrevamo-lo juntxs!

 A todxs xs vândalxs e baderneirxs, uma proposta, talvez longa demais, talvez demasiado rápida mas, em todo caso, apenas uma forma de dizer do como tenho experimentado e falado o que tenho vivido nos últimos dias e convidar a todxs xs que não nos amedrontamos e temxs nos afirmado ingovernáveis para juntxs seguirmos elaborando, em palavras e em ações,  o que juntxs temos vivido.

Essa fala vai assinada por mim só porque a primeira pessoa na escrita coincide com a corporeidade da minha fala em atos nos enfrentamentos com a ordem que temos juntxs experimentado. Qualquer um que queira, pode tomar para si, todo ou em parte esse texto e dele fazer o uso que quiser. Qual será o uso que faremos de tantas enunciações que temos experimentado, encerra o que se encontra em questão. Aquelxs que queremos abolir a presente ordem das coisas, ordem fundada na propriedade privada, já não queremos possuir nossos discursos sob a forma da autoria. O queremos, antes, sob a forma do diálogo prático na crítica prática do mundo presente.

Não se trata aqui, portanto, nem de uma análise, nem de uma reportagem, nem de um relato, nem de um programa. Não quero convencer ninguém, nem ensinar. Apenas me proponho a ser mais uma a dialogar sobre o que juntxs  temos feito e com isso contribuir para que sigamos negando as falas das tantas faces do espetáculo. Negar as falas separadas da ação, as falas profundíssimas da consciência autonomizada dos intelectuais de todos as matizes, as falas canalhamente subservientes à ordem dos partidos e dos massmedia, as falas insidiosamente ameaçadoras de nossa autonomia dos candidatos a dirigentes.

Tal diálogo pressupõe já uma limitação. Ele é limitado porque se posiciona de um lado claro da barricada. Só pode falar do que vê com a clareza possível àqueles que teimamos em abrir espaços e buscar ar contra os ares irrespiráveis da ordem, ares tornados ainda mais irrespiráveis pelas bombas arremessadas sobre nós!

Essa fala sabe que do outro lado mobilizam-se o capital, a polícia, o Estado, as grandes mídias, os partidos, sindicatos, igrejas e demais formas de expressão dos senhores atuais ou candidatos a senhores, todos expressão da separação mais fundamental que governa o mundo presente: a separação entre os que possuem o poder de decidir o quê, onde e porque produzir e que com isso decidem cotidianamente, no Estado, o quê e como é permitido agir e dizer e, de outro lado, os obedientes. Quebrando essas separações, nós, os ingovernáveis, que resistimos a esses poderes separados sobre nossa vida.

Situado do lado de cá das barricadas, esse texto não pretende ser entendido por todxs e aliás, precisa permanecer incompreensível aos obedientes. Ele se destina apenas aos desobedientes, aos que ousamxs agir e pensar por conta própria e que estabelecemxs, na e pela ação autônoma, os diálogos que tornam a sua ação direta ação comum! Dirige-se, portanto,  aos que aprendemos a não ter senhores e a não ser senhores de ninguém.

Esse aprendizado é apenas possível quando a própria pele está em jogo. Em uns poucos dias de barricadas, aprendemos que a diferença entre ser alvo e atacar depende exclusivamente da capacidade de decidir com autonomia e encontrar rapidamente formas e diálogos que se transformam na nossa comum resistência.  Aprendemos nos embates generalizados nas ruas, como antes aprendemos nos embates cotidianos, que a criatividade e a astúcia, a autonomia para decidir e nos organizar na contramão dos que nos ordenam (seja quem ordena o patrão, a polícia, os governantes, os candidatos a futuros governantes, o presidente do sindicato, da UNE , dos CAs, DCEs ou grêmios, enfim, quaisquer chefes) depende inteiramente da capacidade de ação que tenhamos. Agir e agir diretamente. Ninguém o fará em nosso nome!

Este texto se destina apenas a todxs os que,  vandalxs contra a ordem atual, têm feito tremer o Estado e o capital. Destina-se a todxs xs saqueadores, que têm dito com suas ações diretas que se apropriam do que fora destinado a ser mercadoria e, negando esse destino, abrem a história com usos novos, agora tornados possíveis.

São algumas reflexões para discutirmos, reflexões que se somam a tantas outras maravilhosas reflexões, curtas, longas, com ou sem imagens que temos compartilhado nas barricadas, nas redes, nas assembleias. São contribuições para juntxs elaborarmos a fala da nossa crítica prática, crítica que fala com gestos, sim, mas não só com símbolos. Nossos gestos são já sempre acompanhados da significação e das palavras, mas nunca da palavra abstrata. Nossa ação, enquanto gesticula, fala também e enuncia palavras precisas, mesmo quando curtas, como fez Alisson, que todxs  xs que estamos nas barricadas conhecemos, que reconhece sua ação como o CERTO, certo que dissolve a ordem presente, queimando ônibus e destruindo as coisas e, nisso, recusa praticamente o domínio das coisas sobre nós.

Temos falado de muitos e diferentes modos! Colocar nossas enunciações em diálogo para transformá-las nas vozes múltiplas das assembleias e barricadas enfurecidas contra a ordem, vozes múltiplas que, no entanto, se reconhecem na comum negação da ordem atual e nisso ensinam umas às outras que a verdadeira diversidade é aquela que o membro da torcida organizada descobre ao se encontrar montando junto as barricadas com o ativista GLBTT. Nelas, tanto o moralista que identifica a torcida organizada com o fascismo quanto aquele que recusa homofobicamente a experimentação da sexualidade fora da norma hetero, aprendem que do lado de cá da barricada somos muitxs e diversxs e aprendem também que essa convergência de ações que se transforma em convergência de vozes é já a vida de outro modo que queremos ao enfrentar a ordem!

Entre uma e outra festa nas barricadas, entre uma e outra aprendizagem de arremesso, temos experimentado tais enunciações. Esse texto quer apenas, como uma fala das tantas que temos feito, insistir em que precisamos falar, uns com xs outrxs, sobre nós, pois só assim, fazendo juntxs e buscando dizer aquilo que fazemxs, permaneceremos ingovernáveis. Como os caminhos do desejo e da vida são inseparáveis da negação da morte e do gozo, nas barricadas, como no bom sexo, todo o prazer só pode residir em fazer falando e falar fazendo, o exato oposto das separações que aprisionam a vida e o desejo no mundo presente.

Numa palavra, os especialistas que buscam definir, explicar e compreender o que somxs, têm fracassado e fracassarão cada vez mais. Quanto mais ingovernáveis nos tornamos, menos cabemos na fúria classificatória, na fúria unificadora que busca uma manchete, um conceito, um programa.

Aquilo que aos olhos dos especialistas vários é nosso maior trunfo e também nossa maior miséria – o fato de que somos uma congestão desgovernada, que não cabe em pequenas e reformistas pautas como reforma política, constituinte ou PEC não-sei-qual – mostra que o que está em questão, para nós, é a negação da própria representação da vida em que consistem o dinheiro e o Estado, centro do mundo presente.

Que o passe livre universal seja uma pauta que nos move a todxs, é só a mostra de que não mais queremos submeter nossos ires e vires ao dinheiro. Que a recusa aos despejos de moradores para as reformas urbanísticas exigidas pelos senhores do capital e do Estado para a realização da copa do mundo tenha nos levado aos milhares às ruas, é só uma mostra de que queremos nos apropriar em comum dos espaços, usá-los sem submetê-los à lógica do lucro, à dominação dos senhores do capital. Precisamos, como já fazemos cotidianamente nas sabotagens ao trabalho assalariado as mais várias, nos negar continuamente a converter nosso tempo em lucro dos senhores. Para isso, é preciso ir além das greves, é preciso tomar de modo permanente o que nos roubam diariamente: é preciso ocupar e autogerir todos os espaços de produção!

Precisamos generalizar nossa recusa, torná-la permanente e total recusa à ordem atual das coisas! Ousar propor que autogoverno e dissolução da ordem mercantil, que tomar e autogerir todos os espaços das nossas vidas é não só uma tarefa realizável, mas é a nossa tarefa, se verdadeiramente queremos por fim ao roubo cotidiano do nosso tempo e das nossas vidas realizado pelo mercado e pelo Estado, ousar dizer que já não queremos obedecer a ninguém senão a nós mesmos que juntxs inventamos uma nova forma de viver ao negar a ordem presente. Essa talvez seja a nossa principal tarefa nesse momento!

Não sairemos das barricadas! Não nos tornaremos outra vez governáveis! O autogoverno não cabe em plebiscito, nem em reforma política. O Autogoverno é o contrário do Estado, o contrário do mercado! Usar as coisas e inventar a festa das barricadas, feita, como toda festa, também ela de suor e sangue e por isso de coragem! Mas sobretudo feita de desejo,  do prazer de inventar uma ordem em comum que não cabe nos limites que hoje o poder nos oferece!

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NOTAS SOBRE O RECENTE VANDALISMO, OU DA CONTRAOFENSIVA IDEOLÓGICA BURGUESA

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Patrick

Desde a primeira saraivada dos lacrimogêneos ideológicos da mídia burguesa, quando tentou “desqualificar” os primeiros protestos – que doravante se alastaram nacionalmente – os governos, sindicatos, partidos (doravante no texto “ELES”, incluindo aqui a mídia) não cessam de mostrar em bloco seu(s) desespero(s). As tentativas de desmobilização de uma radicalização dos movimentos de ruas tem se sofisticado. Na guerra de relatos, os movimentos de rua conseguiram algo inédito (pelo menos a meu ver), a saber, provocar não somente a retratação da imprensa burguesa, bem como sua autorrefutação. Assim é que os Jabores da vida, tornando flagrante a obediência acrítica à indústria da informação, se desculpam e “invertem” seus discursos, conforme exigem seus patrões, na sanha de manterem seus empregos! Esses covardes, que não sustentam seus pontos de vistas, procuram sempre o altar da santa “opinião pública”, com a qual eles mantêm um comércio incestuoso. Porém, essa “opinião pública” tem se pulverizado na recusa dos manifestantes de que líderes e outras formas velhacas de representatividade assumam o protagonismo, tanto no corpo quanto no discurso, da luta. No começo, ELES se ocuparam de detratar um movimento vanguardizado por uma “classe média entediada”, sem insatisfações reais. Contudo, logo capitularam ante a pressão da circulação alternativa das “versões” das redes sociais sobre o que estava acontecendo. Touchées, juventude entediada! Tentaram, então, empacotar o movimento atrelando-o exclusivamente à pauta reivindicatória da luta pela redução das tarifas das passagens de ônibus (os famigerados vinte centavos). Desse modo, sugestionam aos manifestantes que o atendimento a essa revindicação miserável deve esvaziar o sentido da causa por que lutar, na expectativa de ocasionar o esfriamento e desaparecimento dos movimentos. Também fracassou aqui a mídia e a política profissional. Avante! Como as tentativas de ridicularizar “o movimento” como uma peça homogênea, no intuito de frear a adesão exponencial que ele obtinha, primeiro, de limitá-lo a uma pauta reivindicatória pontual, segundo, não conseguiram a desmobilização, ao contrário, instigou mais, ELES partem para uma terceira investida: provocar e/ou reforçar internamente uma crise, ou melhor, criar representatividade no interior das manifestações, suscitando basicamente a culpa e o medo daqueles que poderiam se “desgarrar”: que são sempre os ardis com que o seu reacionarismo logra. É aí que começa a circular a senha do “vandalismo”. 
Todos sabemos, de saída, que o que inflamou várias cidades do Brasil, inicialmente, foram as ações enfáticas dos manifestantes de Goiânia, que mostraram praticamente a que estavam dispostos na luta real, não midiaticamente mediada, mas inclusive contra mídia. Concomitantemente, a rede Globo, em especial, encomendou e exibiu uma sequência de reportagens sobre os prejuízos causados por Vândalos às estátuas e fontes de praças (Que singelo! Sabe lá de quem são as figuras modeladas nessas estátuas!), provavelmente por pavor de que a baderna se generalizasse, e aqui a gente tem que confiar no poder oracular dos reacionários, eles estão sempre tendo sonhos divinatórios e se munindo de precauções. A Rede Globo de televisão, e suas rivais irmãs, que não se escandalizam com o vandalismo do Estado, como demonstrado recentemente nas cenas de destruição do Pinheirinhos, bem com na de inúmeros documentários feitos sobre as remoções das famílias de suas moradias para viabilização da Copa do Mundo – para remeter a um contexto mais recente – contudo, mostram-se estarrecidas e entristecidas com o rumo caótico que uma minoria baderneira tem trilhado à pedra e a fogo!
Esta terceira tentativa de golpe contra a generalização da radicalização dos movimentos de rua tem sido o mais eficaz e tem, inclusive, inflacionado os cortejos e procissões, em que vêm se transformado as manifestações, de conservadores de toda espécie – se é que existe variação em um grupo dessa natureza. É gente que brada “sem violência!” até para uma bomba junina que papoca no ímpeto de festejo, para uma pichação banal em um muro qualquer, tal o horror que eles têm à energia de uma contestação real em detrimento de cortejos espetaculares. Mas atentemos, a despeito desse apavoramento “anódino”, àqueles que têm avançado a uma contestação mais profunda e praticado a destruição simbólica e material, se assim puder expressar, das formas de relações burguesas, isto é, os vândalos, para os quais retiro as aspas, sabendo que cabe a cada um resolver essa ambiguidade das aspas. Compartilho, pois, algumas notas:

1. Os termos “minoria”, “pequeno grupo”, têm sido gastos para tornar possível a crítica prática dos arruaceiros e vândalos ser enquadrada na concepção burguesa de crime, concepção que fundamentalmente reside no desrespeito à propriedade privada. Entretanto, a propaganda antivandalismo burguesa tem que se haver com o fenômeno da generalização destes críticos práticos em todas as cidades em que ocorrem manifestações, o que introduz o elemento controvertido de uma difusão do vandalismo que não cabe mais nestas rubricas de “minoritário” e “ações isoladas”, base da tentativa da neutralização da eficácia desse ativismo radical.

2. Nenhum interessado em reais transformações sociais pode se acreditar como tal sem abandonar lemas que são apropriáveis por um jornalista da Globo. E aqui é preciso tomar “jornalista da Globo” como metonímia.

3. A ação dos vândalos que praticam o quebra-quebra, a depredação, o incêndio, a pichação tem se dirigido não às pessoas, mas às coisas, e temos que marcar esta distinção que os jornalistas, políticos e os depressivos partidos querem apagar, que distancia “qualitativamente” esse vandalismo do do Estado que é, como sabemos, contra as pessoas (incluindo aqui a natureza), em suas formas mais sórdidas.

4. Os vândalos são intratáveis sim, porque em suas ações a ilusão de que tudo possa ser resolvido em um gabinete oficial, em comissões oportunistas, em síntese, pela política especializada e profissional está dissolvida.

5. Os vândalos têm estado na linha de frente dos reais confrontos com o aparato de sustentação burguesa, colocando seus corpos em risco, e não somente a reivindicação histérica e “falastrosa”.

6. Não tem sido praticada uma destruição aleatória e irracional, embora isso seja compreensível quando o inevitável ressentimento social recrudescer em seu vigor histórico, mas, sobretudo, lojas, em sua maioria multinacionais, bancos, prédios das instituições políticas oficiais, são os alvos destes enraivecidos. A ligação dessas “instituições sociais” com a exclusão e a barbárie do mundo não precisa de maiores detalhes aqui, presumo. Os vândalos sabem disso! Sabem que o cotidiano de suas vidas é dominado totalitariamente pela lógica mercantil. E aqui não se trata de um saber especializado.

7. Os saques são o reclame prático do uso das coisas. A metade da face terrífica que ele nos revela é reflexo da outra metade que permanece obscurecida e obscena, a saber, o constante saque do mundo por particulares: o comércio mundial. A generalização do saque tende à destruição das grandes e pequenas riquezas que produzem uma multidão de despossuídos e, no limite, o desaparecimento do dinheiro como mediador. Alguém já ouviu falar que liberdade não se recebe de presente, mas é conquistada? Pois é, os vândalos parecem ter ouvido.

8. Os vetin, os perifas, o proletariado da esfera do baixo consumo “qualitativo”, mas do alto consumo quantitativo, engrossam as fileiras de vândalos. Nada mais natural de ser esperado e os motivos inequívocos. Os estigmas discriminatórios se espalham sob o espectro da marginalização do vandalismo. Não se pode esperar que a iniciativa de apropriação real e não a alucinação da posse pelo consumo da dita “classe média” e rica, seja tomada por outro estrato do proletariado atual senão por este. É nóis na fita!

9. Nenhum processo histórico de transformações reais, ao contrário de meras reformas de costumes e de das preocupações com os quadros estatísticos, deram-se no mundo sem o fogo e as barricadas. Isto é um sinal, para nós, anticapitalistas, que estamos diante de uma negação radical.

10. Os vândalos não querem “sair bem na foto”. Desprezam a imprensa burguesa, boicotam-na e a atacam. Não é a consciência culpada que os move, mas o desejo.

11. É preciso saber que há muitos vândalos dentro do armário, que aos poucos estão saindo, e que tal resolução é importante para intensificar a luta.

12. É preciso romper com a ilusão da “ilustração” política que rebaixa moralmente as ações dos vândalos. Pobres, miseráveis, marginais são incapazes de fazer transformações sociais porque são iletrados, dizem. O acolhimento desse lema burguês é um sintoma da perda do senso histórico. Basta lembrar aqui das mulheres peixeiras que degolavam nobres em Versalhes sem nenhuma reverência, dos sans-culottes etc. Quem esteve sempre por trás de reais transformações sociais foi a “massa ignara”. Os ilustrados sempre foram aduladores de déspotas, por mais críticos que fossem, teoricamente, bem como conciliatórios.

13. A afetação escandalosa, a agressividade dos vândalos é transformada em culpa na dita “classe média”, entorpecida pelo consumo, pelo recobrimento com lemas e senhas reacionários.

14. O fogo, a rocha, o metal das/nas ruas são materiais da forja, da criação de novas formas. À procura pela beleza dos vândalos se contrapõe o estetismo e o ritualismo das manifestações conciliatórias e conservadoras.

15. A única palavra de ordem que os vândalos parecem admitir, no momento, parece ser aquela pichada na fachada do Teatro Municipal do Rio de Janeiro: “Fogo na Burguesia!”.

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A ordem está ameaçada no Brasil… Todos os grandes símbolos do poder foram atacados, tomados, ocupados… As pessoas foram para a rua, após anos de revolta contida… Nesse momento, os verdadeiros revolucionários avançam contra as tropas do Estado que lança seu terror contra todos… É a guerra de classes definindo seus contornos… Na defesa da ordem unem-se o governo e a oposição, fascistas e democratas, todos os que procuram manter seu pedaço de privilégio contra a avalanche niveladora das ruas… A polícia ataca sem constrangimentos… Delatores obedecem a mídia e colaboram com o regime entregando companheiros que lutam… Os partidos políticos (talvez principalmente os de esquerda) voltam-se contra os insurgentes tachando-os de fascistas porque não aceitam ser tangidos por suas “lideranças”… A única fuga para a liberdade está no combate das ruas. VIVA A LUTA AUTÔNOMA REVOLUCIONÁRIA!

The order is threatened in Brazil … All the great symbols of power were attacked, taken, occupied … People took to the streets after years of rebellion contained … At this point, the true revolutionary advance against the troops of the State which launches its terror against all … It is class warfare defining its contours … In defense of the order unite the government and the opposition, fascists and democrats, all looking to maintain their piece of the privilege against avalanche leveling the streets … Police attacks without constraints … Whistleblowers obey media and collaborate with the regime delivering comrades who struggle … Political parties (perhaps especially those on the left) turn against the insurgents calling it the fascists because they do not allow themselves to be herded by their “leaders” … The only escape to freedom is to fight in the streets. LIVE THE AUTONOMOUS REVOLUTIONARY FIGHT!

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Agora que a Revolta resolveu dar seu ar da graça por aqui, o coletivo Autonomia Proletária somos levados a expor nossas razões em apoiar as manifestações organizadas contra aumentos nos preços das passagens de ônibus em diversas capitais nas quais uma disposição radical de destruição da atual ordem capitalista se faz presente, como visto nos protestos de Porto Alegre, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo. Que existam nesses protestos indivíduos e grupos decididos a converter a luta contra o aumento das passagens em revolta anticapitalista podemos ver tanto pelo comportamento violento da polícia quanto pela pressa da mídia em tentar desqualificar as manifestações como frutos das ações de vândalos. Diante dos fatos, alertamos para necessidade de os protestos municiarem-se de precauções efetivas de autodefesa (pois nesses tempos de Copa do Mundo os aparelhos repressivos não cederão no intuito de minar a resistência dos que se insurgem), além de frisar que o vandalismo não é algo que deva ser evitado, mas pelo contrário, uma maneira que a ação revolucionária encontra para mostrar que “o homem que destrói as mercadorias demonstra sua superioridade humana sobre aquelas”. Enquanto preparamos uma declaração mais pormenorizada, publicamos em nosso blog dois textos que temos como referência a respeito do que aqui se trata. O primeiro, “O caráter destrutivo”, de autoria de Walter Benjamin, foi publicado originalmente em 1931, no jornal alemão Frankfurter Zeitung; o segundo, “Declínio e queda da economia espetacular-mercantil”, de Guy Debord, apareceu originalmente no número 10 da Revista da Internacional Situacionista em 1966 e foi motivado pela Revolta de Watts, ocorrida em 1965 num bairro negro de Los Angeles. Esperamos que a leitura estimule a convicção dos revolucionários de que o poder não é algo que deva ser conquistado, ele deve ser destruído. 

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O caráter destrutivo

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por Walter Benjamin

(a partir de publicação da Revista Punkto, maio 2011)

Poderia acontecer que alguém, olhando a sua vida em retrospectiva, chegasse à conclusão de que quase todos os vínculos mais profundos que nela lhe aconteceram partiram de pessoas cujo «carácter destrutivo» era unanimemente reconhecido. Um dia, talvez por acaso, faria esta constatação, e quanto mais violento fosse o choque sofrido, tanto maior a possibilidade de ele chegar a descrever esse carácter destrutivo.

O carácter destrutivo só conhece um lema: criar espaço; apenas uma actividade: esvaziar. A sua necessidade de ar puro e espaço livre é maior do que qualquer ódio.

O carácter destrutivo é jovem e alegre: destruir rejuvenesce, porque remove vestígios da nossa própria idade; e alegra, porque toda a remoção significa para aquele que destrói uma redução total, e mesmo uma radiciação da sua própria situação. Somos levados ainda mais a uma tal imagem apolínea do destruidor se nos dermos conta de como o mundo se simplifica enormemente se for posta à prova a sua vocação para a destruição. É este o grande laço que envolve em consonância tudo o que existe. É um ponto de vista que proporciona ao carácter destrutivo um espectáculo da mais profunda harmonia.

O carácter destrutivo está sempre disposto a trabalhar. É a natureza que lhe prescreve o ritmo, pelo menos indirectamente, pois tem de se antecipar a ela. De outro modo, será ela próprio a levar a cabo a destruição.

O carácter destrutivo não tem ideais. Tem poucas necessidades, e muito menos a de saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiro, pelo menos por alguns instantes, o espaço vazio, o lugar onde a coisa esteve, onde a vítima viveu. Haverá sempre alguém que precise dele sem o ocupar.

O carácter destrutivo faz o seu trabalho, evita apenas o trabalho criativo. Do mesmo modo que o criador busca solidão, o destruidor tem sempre de estar rodeado de gente, de testemunhas da sua eficácia.

O carácter destrutivo é um sinal. Do mesmo modo que uma referência trigonométrica está expostas ao vento por todos os lados, ele expõe-se de todos os lados ao palavreado. Não faz sentido protegê-lo disso.

O carácter destrutivo não está nada interessado em ser compreendido. Considera todos os esforços nesse sentido como superficiais. A incompreensão não o afecta. Pelo contrário, provoca-a, tal como os oráculos, essas instituições estatais destrutivas, a provocaram em tempos. O mais pequeno-burguês de todos os fenómenos, a bisbilhotice, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O carácter destrutivo deixa que o interpretem mal; não fomenta a bisbilhotice.

O carácter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca o seu conforto, e a sua concha é a quinta-essência dele. O interior da concha é o rasto revestido a veludo que ele deixou no mundo. O carácter destrutivo apaga até os vestígios da destruição.

O carácter destrutivo está na linha da frente dos tradicionalistas. Alguns transmitem as coisas tornando-as intocáveis e conservando-as, outros as situações, tornando-as manejáveis e liquidando-as. Estes são os chamados destrutivos.

O carácter destrutivo tem a consciência do homem histórico, cuja afecção fundamental é a de uma desconfiança insuperável na marcha das coisas, e a disposição para, a cada momento, tomar consciência de que as coisas podem correr mal. Por isso, o carácter destrutivo é a imagem viva da fiabilidade.

O carácter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas por isso mesmo vê caminhos por toda a parte, mesmo quando outros esbarram com muros e montanhas. Como, porém, vê por toda a parte um caminho, tem de estar sempre a remover coisas do caminho. Nem sempre com brutalidade, às vezes fá-lo com requinte. Como vê caminhos por toda a parte, está sempre na encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que o próximo trará. Converte em ruínas tudo o que existe, não pelas ruínas, mas pelo caminho que as atravessa.

O carácter destrutivo não vive o sentimento de que a vida é digna de ser vivida, mas de que o suicídio não compensa.

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Declínio e queda da economia espetacular-mercantil

por Guy Debord

(a partir de texto retirado do blog SOPRO Panfleto Político-Cultural; trad. de Rodrigo Lopes Barros de Oliveira e Leonardo D’Ávila de Oliveira)

Entre os dias 13 e 16 de agosto de 1965, a população negra de Los Angeles se levantou. Um incidente entre policiais de trânsito e passantes acabou em dez dias de tumultos espontâneos. Os reforços crescentes das forças de ordem não foram capazes de retomar o controle das ruas. Por volta do terceiro dia, os Negros pegaram em armas, saqueando as lojas acessíveis, de maneira que puderam até disparar contra os helicópteros da polícia. Milhares de soldados e policiais — incluindo o peso militar de uma divisão de infantaria, apoiada por tanques — tiveram que ser mobilizados na luta para encurralar a revolta no bairro de Watts; em seguida, para reconquistá-lo ao custo de numerosos combates de rua que se estenderam por vários dias. Os insurgentes procederam com a pilhagem generalizada das lojas e as incendiaram. Segundo os números oficiais, houve 32 mortos, dos quais 27 Negros, mais de 800 feridos e 3.000 presos.

As reações de todos os lados revestiram-se desta claridade que o evento revolucionário, pois que é em si mesmo um esclarecimento em atos dos problemas existentes, tem sempre o privilégio de conferir às diversas nuances do pensamento de seus adversários. O chefe da polícia, William Parker, recusou toda mediação proposta pelas grandes organizações negras, afirmando precisamente que “estes desordeiros[1] não têm chefes”. E certamente, à medida que os Negros não tinham mais chefes, era chegado o momento da verdade em ambos os lados. O que ansiava, por sua vez, ao mesmo tempo, um dos lideres dos desempregados, Roy Wilkins, secretário geral da National Association for the Advancement of Colored People? Ele declarou que os tumultos “deveriam ser reprimidos fazendo uso de toda força necessária”. E o cardeal de Los Angeles, McIntyre, o qual protestava abertamente, não o fez contra a violência da repressão, como alguém poderia supor conveniente de se praticar no momento de aggiornamento da influência romana; protestava com urgência frente a “uma revolta premeditada contra os direitos de vizinhança, contra o respeito à lei e a manutenção da ordem”; convocando os católicos a se oporem aos saques, à “essa violência sem justificativa”. E todos aqueles que chegaram a ver as “justificativas aparentes” da raiva dos Negros de Los Angeles, mas certamente não a justificativa real, todos os pensadores e “responsáveis” pela esquerda mundial, pelo seu fim, lamentaram a irresponsabilidade e a desordem, a pilhagem e, sobretudo, o fato de que seu momento inicial fosse os saques às lojas contendo álcool e armas, e os 2000 focos de incêndio contados, com os quais os preto-leiros (pétroleurs) de Watts clarearam sua batalha e sua festa. Quem saiu, portanto, em defesa dos insurgentes de Los Angeles, nos termos em que merecem? Nós o faremos. Deixemos os economistas chorarem pelos 27 milhões de dólares perdidos, e os urbanistas por um de seus mais belos supermarkets tornado fumaça, e McIntyre pelo seu assistente de xerife abatido; deixemos os sociólogos se lamentarem pelo absurdo e embriagues nessa revolta. É o papel de uma publicação revolucionária não apenas dar razão aos insurgentes de Los Angeles, mas de contribuir a dar-lhes suas razões, explicar teoricamente a verdade cuja ação prática aqui exprimi a pesquisa.

Na Declaração publicada em Argel no mês de julho de 1965[2], após o golpe de estado de Boumedienne, os situacionistas, os quais expuseram, aos argelinos e aos revolucionários do mundo, as condições na Argélia e no resto do mundo como um todo, mostraram entre seus exemplos o movimento dos Negros americanos que, “caso possa se afirmar com resultado”, desvelará as contradições do capitalismo mais avançado. Cinco semanas mais tarde, este resultado manifestou-se na rua. A crítica teórica da sociedade moderna, no que ela tem de mais nova, e a crítica em atos da mesma sociedade já coexistem, embora separadas, mas igualmente avançadas até a mesma realidade, falando da mesma coisa. As duas críticas se explicam mutuamente, e uma é sem a outra inexplicável. A teoria da sobrevivência e do espetáculo foi esclarecida e verificada por esses atos que são incompreensíveis à falsa consciência americana. Ela, em troca, algum dia os esclarecerá.

Até agora, as manifestações dos Negros pelos “direitos civis” foram mantidas pelos chefes em uma legalidade que tolerava as piores violências das forças de ordem e dos racistas, como no precedente mês de março em Alabama, durante a marcha de Montgomery; e, mesmo depois desse escândalo, um acordo discreto entre o governo federal, o governador Walace e o pastor King, levou a marcha de Selma do 10 de março a retroceder frente ao primeiro requerimento policial, com dignidade e oração[3]. O enfrentamento esperado naquele momento pela multidão de manifestantes não fora mais que o espetáculo de um enfrentamento possível. Ao mesmo tempo, a não-violência alcançara o limite ridículo de sua coragem: expor-se aos golpes do inimigo, e depois elevar a grandeza moral até poupar-lhe a necessidade de usar outra vez sua força. O dado básico, porém, é que o movimento pelos direitos civis apenas reivindicou, por meios legais, os problemas legais. É lógico apelar legalmente à lei. Irracional, no entanto, é mendigar legalmente diante da ilegalidade patente, como se fosse algo sem sentido que se dissolveria ao ser apontada com o dedo. É notório que a ilegalidade superficial, descaradamente visível, ainda aplicada aos Negros em muitos estados americanos, tem suas raízes em uma contradição econômico-social que não é do alcance das leis existentes; e que nenhuma lei jurídica futura poderá desfazer, ao contrário das leis mais fundamentais da sociedade em que os Negros americanos finalmente ousam exigir viver. Os Negros americanos querem, na verdade, a subversão total desta sociedade ou nada. E o problema dessa subversão necessária vem à tona assim que os Negros chegam aos meios subversivos; essa passagem a tais meios, porém, surge em suas vidas cotidianas, como o que há de mais acidental e de mais objetivamente justificado. Não é mais a crise do estatuto dos Negros na América; é a crise do estatuto da América, colocada primeiramente entre os Negros. Não houve conflito racial: os Negros não atacaram os Brancos que estavam no caminho, mas apenas os policiais brancos; e a mesma comunidade negra não se estendeu aos proprietários negros de lojas, tampouco aos motoristas negros. O próprio Luther King foi obrigado a admitir que os limites de sua especialidade foram ultrapassados, ao declarar, em outubro na cidade de Paris, que “não se tratava de tumultos raciais, mas de classe”.


CRÍTICA AO URBANISMO
(Supermarket em Los Angeles, agosto 1965)

“A América debruçou-se imediatamente sobre esta nova ferida. Por vários meses, sociólogos, políticos, psicólogos, economistas, especialistas de todos os gêneros sondaram sua profundidade… Não há mais um ‘bairro’[4] no sentido próprio do termo, mas uma planície desesperadamente extensa e monótona… ‘América em um plano’, toda em largura; isso que uma paisagem americana pode ter de mais melancólico, com suas casas de teto plano, suas lojas que vendem todas as mesmas coisas, seus vendedores de ‘hambúrgueres’, suas lojas de conveniência, todas degradadas pela pobreza e pela classe… A circulação de automóveis é menos densa do que em outro lugar, mas a dos pedestres quase não é maior, tão dispersas parecem as habitações e as distancias desencorajadoras… A passagem dos Brancos atrai todos os olhares, olhares nos quais se lê senão o ódio, ao menos o sarcasmo (‘Mais desses pesquisadores ou sociólogos que vêem procurar as explicações ao invés de nos conseguir trabalho’, se escuta freqüentemente). Quanto ao alojamento, pode-se sem dúvida melhorá-lo materialmente, mas quase não se vê como será possível impedir os Brancos de fugir em massa de um bairro, assim que os Negros começarem a se instalar. Esses últimos continuarão a sentir-se abandonados à própria sorte, sobretudo nessa cidade desmesurada que é Los Angeles, desprovida de centro, sem sequer multidão onde se fundir, onde os Brancos apenas entrevêem seus semelhantes através do pára-brisa de seus carros… Enquanto o pastor Martin Luther King, alguns dias mais tarde, discursava em Watts e pedia a seus irmãos de cor para ‘dar as mãos’, alguém gritou da massa: ‘Para queimar…’ É um espetáculo reconfortante ver a certa distância de Watts os bairros ditos de ‘classe média’ onde os Negros da nova burguesia aparam sua grama em frente às residências de alto luxo”.

Michel Tatu (Le Monde, 3-11-65)

A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria, e do trabalhador-consumidor hierarquicamente submisso aos padrões da mercadoria. Os Negros de Los Angeles, como os bandos de jovens delinqüentes de todos os países avançados, embora mais radicalmente, pois se trata de uma classe social globalmente sem porvir, de uma parte do proletariado que não pode acreditar em quaisquer hipóteses extraordinárias de promoção e integração, tomam ao pé da letra a propaganda do capitalismo moderno, sua publicidade da abundância. Eles querem possuir imediatamente todos os objetos expostos e abstratamente disponíveis, porque querem usá-los. Desta maneira, recusam o valor de troca, a realidade mercantil que é seu molde, a motivação e o fim último, e que tudo selecionou. Por meio do roubo[5] e do presente, reencontraram um uso que, de pronto, nega a racionalidade opressiva da mercadoria, o qual faz aparecer suas relações e sua fabricação inclusive como arbitrárias e não-necessárias. Os saques do bairro de Watts manifestaram a realização mais sumária do princípio bastardo: “Cada qual segundo suas falsas necessidades”, as necessidades determinadas e produzidas pelo sistema econômico que os saques precisamente rejeitam. Mas, uma vez que essa abundância é levada ao pé da letra, retomada de imediato, e não mais indefinidamente perseguida no transcurso do trabalho alienado e no aumento das necessidades sociais diferidas, os verdadeiros desejos se experimentam já na festa, na afirmação lúdica, no potlatch de destruição[6] . O homem que destrói as mercadorias demonstra sua superioridade humana sobre aquelas. Ele não permanecerá prisioneiro das formas arbitrárias que revestiam a imagem de sua necessidade. A passagem do consumo à consumação realizou-se sob as chamas de Watts[7]. As grandes geladeiras roubadas pelas pessoas que não possuíam eletricidade, ou que tinham a corrente cortada, é a melhor imagem da mentira da abundância tornada verdade em ação. A produção mercantil, assim que deixa de ser comprada, transforma-se em criticável e modificável em todas as suas formas particulares. Apenas quando paga com dinheiro, qual símbolo de um grau na sobrevivência, ela torna-se respeitada como um fetiche admirável.


PLAYING WITH RIFLED CASH REGISTER

A sociedade da abundância encontra sua resposta natural nos saques, contudo não é de nenhuma maneira abundância natural e humana, e sim de mercadorias. E os saques, que fazem instantaneamente desmoronar a mercadoria como tal, mostram também a ultima ratio daquela: a força, a polícia e os outros destacamentos especiais que possuem no Estado o monopólio da violência armada. O que é um policial? É o servidor ativo da mercadoria, o homem totalmente submisso a esta, pela ação do qual tal produto do trabalho humano permanece uma mercadoria, cuja vontade mágica é de ser paga, e não vulgarmente uma geladeira ou um fuzil, algo cego, passivo, insensível, que é submisso ao primeiro que chegue para usá-lo. Por trás da indignidade que há em depender do policial, os Negros rejeitam a indignidade que há em depender da mercadoria. A juventude sem porvir mercantil de Watts escolheu uma outra qualidade do presente, e a verdade desse presente foi irrecusável a ponto de arrastar toda população, as mulheres, as crianças, e até os sociólogos presentes no local. Uma jovem socióloga negra daquele bairro, Bobbi Hollon, declarou em outubro ao Herald Tribune: “As pessoas, antes, tinham vergonha de dizer que vinham de Watts. Elas o resmungavam. Agora o dizem com orgulho. Rapazes que ostentavam sempre as camisas abertas até a cintura e que lhe fariam picadinho em meio segundo chegam aqui às sete horas. Eles organizam a distribuição da comida. Claro, não se deve criar ilusões, haviam-na roubado… Todo esse blá-blá-blá cristão foi utilizado contra os Negros por muito tempo. Essa gente podia saquear por dez anos e não recuperaria metade do dinheiro que lhes roubaram nessas lojas por todos esses anos… Quanto a mim, sou apenas uma garota negra.” Bobbi Hollon, que decidiu jamais lavar o sangue que manchou suas alpargatas durante os tumultos, disse que “agora o mundo inteiro observa o bairro de Watts”.

Como os homens fazem a história, a partir das condições preestabelecidas para dissuadir-lhes de intervir? Os Negros de Los Angeles são melhor pagos que todos os outros dos Estados Unidos, mas estão ainda mais separados da riqueza máxima que se exibe precisamente na Califórnia. Hollywood, o pólo do espetáculo mundial, está na vizinhança imediata. Prometem-lhes que ascenderão, com paciência, à prosperidade americana, no entanto eles vêem que essa prosperidade não é uma esfera estável, mas uma escalada sem fim. Quanto mais sobem, mais se distanciam do topo, porque são desfavorecidos logo de saída, são menos qualificados, portanto mais numerosos entre os desempregados, e finalmente porque a hierarquia que lhes esmaga não é apenas aquela do poder aquisitivo como fato econômico puro: mas também se trata de uma inferioridade que lhes impõem em todos os aspectos da vida cotidiana, os costumes e os preconceitos de uma sociedade na qual todo poder humano está alinhado com o poder aquisitivo. Da mesma maneira que a riqueza humana dos Negros americanos é detestável e considerada criminal, a riqueza econômica não pode fazê-los completamente aceitáveis na alienação americana: a riqueza individual fará apenas um negro rico, porque os Negros como um todo devem representar a pobreza em uma sociedade de riqueza hierarquizada; Todos os observadores escutaram esse grito que clamava pelo reconhecimento universal do sentido do levante: “Esta é a revolução dos Negros, e queremos que o mundo todo o saiba” Freedom now é a senha de todas as revoluções da história; mas, pela primeira vez, não se trata da miséria, ao contrário, é a abundância material que se trata de dominar segundo novas leis. Dominar a abundância não é, portanto, somente modificar a distribuição, mas redefinir todas as orientações superficiais e profundas. É o primeiro passo de uma luta imensa, de um alcance infinito.

Os Negros não estão isolados em sua luta porque uma nova consciência proletária (a consciência de não ser em nada o dono de sua atividade, de sua vida) começa na América em camadas que recusam o capitalismo moderno, e, por esta razão, assemelham-se a eles. A primeira fase da luta dos Negros, justamente, foi o sinal de uma contestação que se estende. Em dezembro de 1964, os estudantes de Berkeley, oprimidos em sua participação no movimento dos direitos cívicos, vieram a fazer uma greve que questionava o funcionamento desta “multiversidade”[8] da Califórnia e, através disto, toda a organização da sociedade americana, bem como o papel passivo que se lhes destina lá. Imediatamente se descobre na juventude estudantil as orgias de bebida ou de drogas e a dissolução da moral sexual que se vinculava aos Negros. Esta geração de estudantes então inventou uma primeira forma de luta contra o espetáculo dominante, o teach in, e esta forma foi retomada em 20 de outubro na Grã-Bretanha, na universidade de Edimburgo, em razão da crise da Rodésia[9]. Esta forma, evidentemente primitiva e impura, é o momento da discussão dos problemas, que recusa a se limitar no tempo (academicamente); ela assim procura ser conduzida até o final, e este fim naturalmente é a atividade prática. Em outubro dezenas de milhares de manifestantes aparecem na rua, em Nova Iorque e em Berkeley, contra a guerra no Vietnã, e eles entram em conjunto com os gritos dos desordeiros de Watts: “Saiam de nosso bairro e do Vietnã!” Nos Brancos que se radicalizam, a famosa fronteira da legalidade é ultrapassada: dá-se “cursos” para aprender a fraudar os Conselhos de Revisão (Le Monde, 19 de outubro de 1965), queimam-se perante a TV papéis militares. Na sociedade da abundância exprime-se o desgosto desta abundância e de seu preço. O espetáculo é sufocado pela atividade autônoma de uma camada avançada que refuta seus valores. O proletariado clássico, na medida mesma em que se pôde provisoriamente integrá-lo ao sistema capitalista, não havia integrado os Negros (muitos sindicatos de Los Angeles negaram os Negros até 1959); e agora os Negros são o pólo de unificação para tudo o que refuta a lógica desta integração ao capitalismo, nec plus ultra de toda integração prometida. E o conforto não será jamais suficientemente confortável para satisfazer aqueles que procuram o que não está no mercado, o que o mercado precisamente elimina. O nível atingido pela tecnologia dos mais privilegiado se torna uma ofensa, mais fácil de exprimir que a ofensa essencial da reificação. A revolta de Los Angeles é a primeira da história que pôde por vezes justificar a si mesma argüindo pela falta de ar-condicionado durante uma onda de calor.


INTEGRAÇÃO PARA QUÊ?

Os Negros têm na América seu próprio espetáculo, sua imprensa, suas revistas e suas vedetes coloridas, e assim eles o reconhecem e o vomitam como espetáculo falacioso, como expressão de sua indignidade, porque eles o vêem como minoritário, simples aprendiz de um espetáculo geral. Eles reconhecem que este espetáculo de sua consumação desejável é uma colônia daquele dos Brancos, e vêem, portanto, mais depressa a mentira de todo o espetáculo econômico-cultural. Eles reivindicam, querendo efetiva e imediatamente participar à abundância, que é o valor oficial de todo Americano, a realização igualitária do espetáculo da vida cotidiana na América e a prova real dos valores semi-celestes, semi-terrestres deste espetáculo. Mas está na essência do espetáculo não ser realizável imediatamente nem igualitariamente mesmo para os Brancos (os Negros fazem justamente função de precaução espetacular perfeita desta desigualdade estimulante na corrida à abundância). Quando os Negros exigem tomar à risca o espetáculo capitalista, eles relançam o próprio espetáculo. O espetáculo é uma droga para escravos. Ele não permite ser tomado à risca, mas seguido em um ínfimo grau de retardo (se não há mais retardo a mistificação aparece). De fato, nos Estados Unidos, os Brancos são hoje os escravos da mercadoria e os Negros seus refutadores. Os Negros querem mais que os Brancos: eis o coração de um problema irresolúvel, ou resolúvel somente com a dissociação desta sociedade branca. Também os Brancos que querem sair de sua própria escravidão devem aderir antes à revolta negra, não como afirmação de cor evidentemente, mas como negação universal à mercadoria, e finalmente do Estado. O intervalo econômico e psicológico dos Negros em relação aos Brancos permite-lhes ver o que é o consumidor branco e o justo desprezo que eles têm deste se torna desprezo a todo consumidor passivo. Também os Brancos que rejeitam este papel não têm chance a não ser unificando sempre mais sua luta com aquela dos Negros, e ao encontrar a si mesmos e apoiar até o fim as razões coerentes. Se sua confluência se separasse diante da radicalização da luta, um nacionalismo negro se desenvolveria, o qual condenaria cada lado ao afrontamento segundo os mais velhos modelos da sociedade dominante. Uma série de extermínios recíprocos é o outro termo da alternativa presente, quando a resignação não pode mais continuar.

As tentativas de nacionalismo negro, separatista ou pró-africano, são sonhos que não podem responder à opressão real. Os Negros americanos não têm pátria. Eles estão, na América, em casa e alienados, como os outros Americanos, mas eles sabem o que são. Assim, não são o setor atrasado da sociedade americana, mas são o setor mais avançado. Eles são o negativo em obra, “o lado mau que produz o movimento que faz a história continuando a luta” (Miséria da Filosofia). Não há África para isto.

Os Negros americanos são produto da indústria moderna do mesmo modo que o eletrônico, a publicidade e o acelerador de partículas. Eles possuem suas contradições. Eles são os homens que o paraíso espetacular deve, a cada vez, integrar e impulsionar de sorte que o antagonismo do espetáculo e da atividade dos homens se admite completamente a seu propósito. O espetáculo é universal como a mercadoria. Mas o mundo da mercadoria por estar fundado em uma oposição de classes faz com que a mercadoria seja ela mesma hierárquica. A obrigação à mercadoria, é, portanto, o espetáculo que informa o mundo da mercadoria, de ser em uma só vez universal e hierárquica rumo a uma hierarquização universal. Mas pelo fato de que esta hierarquização deve quedar inconfessada, ela se traduz em valorizações hierárquicas inconfessáveis, porque são irracionais, em um mundo da racionalização sem razão. É esta hierarquização que cria os racismos por toda parte: A Inglaterra trabalhista acaba de restringir a imigração das pessoas de cor, os países industrialmente avançados da Europa retornam a ser racistas ao importar seu sub-proletariado da zona mediterrânea, explorando seus colonizados no interior. E a Rússia não cessa de ser anti-semita porque ela não cessou de ser uma sociedade hierárquica em que o trabalho deve ser vendido como uma mercadoria. Com a mercadoria, a hierarquia se recompõe sempre sob formas novas e se estende; que seja entre o dirigente do movimento operário e os trabalhadores ou mesmo entre portadores de dois modelos de automóveis artificialmente distintos. É a tara original da racionalidade mercadológica a doença da razão burguesa, doença hereditária na burocracia. Mas a absurdidade revoltante de certas hierarquias, e o fato de que toda força do mundo da mercadoria se porte cegamente e automaticamente em sua defesa, leva a ver, desde que começa a prática negativa, o absurdo de toda hierarquia.

O mundo racional produzido pela revolução industrial libertou racionalmente os indivíduos de seus limites locais e nacionais, ligou-os à escala mundial; mas sua desrazão está em separar-lhes de novo segundo uma lógica fechada que se exprime em idéias loucas e em valorizações absurdas. O estrangeiro rodeia em toda parte o homem advindo estrangeiro a seu modo. O bárbaro não está mais nos confins da Terra, ele está aqui, constituído em bárbaro precisamente por sua participação obrigada ao mesmo consumo hierarquizado. O humanismo que encobre isto é o contrário do homem, a negação de sua atividade e de seu desejo; é o humanismo da mercadoria, a benevolência da mercadoria ao homem que ela parasita. Para aqueles que reduzem homens a objetos, os objetos parecem ter todas as qualidades humanas, e as manifestações humanas reais se transformam em inconsciência animal. “Eles passaram a se comportar como um bando de macacos em um zoológico”, pode dizer William Parker, chefe do humanismo de Los Angeles.

Quando “o Estado de insurreição” foi proclamado pelas autoridades da Califórnia, as companhias de seguro lembraram que elas não cobrem os riscos a estes níveis: além da sobrevivência. Os Negros americanos, globalmente, não são ameaçados em sua sobrevida — ao menos se permanecerem tranqüilos — e o capitalismo se tornou suficientemente concentrado e imbricado no Estado para distribuir “seguros” aos pobres. Mas, na condição de que eles sempre estão atrás na argumentação da sobrevida socialmente organizada, os Negros possuem os problemas da vida, é a vida que eles reivindicam. Os Negros não possuem nada a garantir que lhes seja próprio; eles têm a destruir todas as formas de seguridade e de seguros privados conhecidos até aqui. Eles aparecem como o que são na verdade: os inimigos irreconciliáveis, não certamente da grande maioria dos americanos, mas do modo de vida alienado de toda a sociedade moderna: o país mais avançado industrialmente não faz nada além de nos mostrar o caminho que será seguido em todos os lugares, se o sistema não for derrubado.


“ALL THIS WORLD IS LIKE THIS VALLEY CALLED JARAMA”
(CANÇÃO DO BATALHÃO LINCOLN)

“As milícias populares estremeceram em frente aos tanques e metralhadoras nos bairros norte de São Domingo. Após quatro dias e quatro noites de combates sangrentos e violentos, as tropas do general Imbert finalmente conseguiram avançar até as proximidades da avenida Duarte e do mercado Villa-Consuelo. Às 6 horas da manhã, quarta-feira, o estabelecimento Rádio-Santo-Domingo foi tomado de assalto. Este prédio, que abriga também a televisão, encontra-se a 200 metros ao norte da avenida Francia e do corredor tido pelos ‘marines’. Ele fora bombardeado na última quinta-feira pelos caças do general Wessin… Combates esporádicos permaneceram por toda quarta-feira na região nordeste da cidade, mas a resistência popular acaba de sofrer sua primeira derrota… Os civis foram abatidos praticamente sozinhos, pois poucos militares que haviam aderido ao movimento do coronel Camano estavam localizados ao norte do corredor. As milícias, neste setor, são principalmente formadas por operários pertencentes ao Movimento Popular Dominicano, uma organização de esquerda. Seu sacrifício já terá valido o ganho de cinco dias, que podem ser preciosos para o levante de 24 de abril…

Na cidade baixa, levantam-se barragens de recipientes de óleo assaz irrelevantes que se tinham por barricadas, ou se toma proteção atrás de caminhões de carga tombados. As armas são disparates. As vestimentas também. Observam-se civis de capacetes redondos e baixos, e militares de boinas… Os revólveres enchem os bolsos dos jeans dos trabalhadores e dos estudantes. Todas as mulheres decididas a combater vestem calças… Os meninos de dezesseis anos seguram tenazmente seus fuzis contra o peito como se estivessem esperando este presente desde o início do mundo. Sem parar, a Rádio-São-Domingo faz apelos ao povo. Reivindica-se-lhes a se dirigir em massa para determinado ponto da cidade onde se espera um ataque de Wessin… É lá, na abertura da ponte Duarte e no cruzamento da avenida do Lieutenant-Amado-Garcia, que a multidão se reúne com coquetéis molotov à mão. Ela vem da cidade baixa e também dos quarteirões norte. Aparece por vezes insaciável e determinada. Quando os caças de Wessin surgem em rasante no eixo da ponte, milhares de punhos se levantam com furor contra os aparelhos. Depois dos barulhos das cadências de tiro, dezenas de corpos caem contorcidos ao solo, e a multidão espalha-se para as casas. Mas ela reaparece e a cada passagem das máquinas suscita a mesma explosão de cólera impotente e de derrota insana e deixa uma nova linha de cadáveres. Mas parece verdadeiramente que se deveria matar toda esta cidade para fazê-la sair da ponte Duarte. Na segunda-feira de 26 de abril pela manhã, o embaixador Tapley Bennet Jr. voltou da Flórida. Pela noite o ‘navio de assalto’ SS Boxer com quinhentos ‘marines’ a bordo chega em frente a São Domingo.”

Marcel Niedergang, em Le Monde de 21-5-65 e de 5-6-65.

Certos extremistas do nacionalismo negro, para demonstrar que somente aceitam um Estado separado, difundiram o argumento de que a sociedade americana, mesmo ao reconhecer-lhes um dia toda a igualdade cívica e econômica, não chegaria nunca, ao nível do indivíduo, a aceitar o casamento inter-racial. Deve, portanto, esta sociedade americana desaparecer, na América e em todos os lugares do mundo. O fim de todo preconceito racial, como o fim de tantos outros preconceitos ligados às inibições, em matéria de liberdade sexual, será evidentemente para além do “casamento” ele mesmo, para além da família burguesa, fortemente abalada entre os Negros americanos, que reina tanto na Rússia como nos Estados Unidos, como modelo de referência hierárquico e de estabilidade de um poder herdado (dinheiro ou grade sócio-estática). Diz-se correntemente desde certo tempo que a juventude americana, após trinta anos de silencio, surgiu como força de contestação e que ela acaba de encontrar sua guerra da Espanha na revolta negra. É necessário que, desta vez, estes “batalhões Lincoln” compreendam todo o sentido da luta em que se comprometem e mantenham-na com tudo o que ela tem de universal. Os “excessos” de Los Angeles não são mais um erro político dos Negros, da mesma forma que a resistência armada do P.O.U.M. em Barcelona em maio de 1937 não foi uma traição da guerra anti-franquista. Uma revolta contra o espetáculo situa-se no nível da totalidade porque — do contrário somente seria produzida singularmente no distrito de Watts — é um protesto do homem contra a vida inumana; porque ela começa ao nível do único indivíduo real e porque a comunidade, da qual o indivíduo revoltado é separado, é a verdadeira natureza social do homem, a natureza humana: a ultrapassagem positiva do espetáculo.



[1]
 O termo em francês “émeutier” significa aquele que se revolta sem, contudo, estar associado a um movimento organizado, seja uma manifestação ou uma revolução. Poderia ser tomado no sentido pejorativo de baderneiro, mas muito mais interessante, neste contexto, é considerá-lo em sua pejoração, porém com um sentido irônico. (N.T.)
[2] O texto ao qual o autor faz referência é “Adresse aux révolutionnaires d’Algérie et de tous les pays”, distribuído clandestinamente em Argel, 1965, e publicado na revistaInternationale Situationniste #10. (N.T.)
[3] As marchas de Selma para Montgomery, as quais incluem o “domingo sangrento”, foram três marchas que marcaram o ápice político do Movimento pelos Direitos Civis. Foram a conseqüência do Movimento pelo Direito ao Voto na cidade de Selma, Alabama, encabeçado por Amelia Boynton Robinson. Ela trouxe muitos líderes proeminentes, à época, do Movimento pelos Direitos Civis àquela cidade, dentre os quais: Martin Luther King Jr., Jim Bevel e Hosea Williams. O domingo sangrento ocorreu em 7 de março de 1965, quando mais de 600 manifestantes, ao atravessarem a ponte Edmund Pettus sobre o rio Alabama, foram brutalmente atacados pela polícia com gás lacrimogêneo, chicotes e cassetetes. O recuo ao qual Debord se refere ocorrera, segundo John Lewis, aliado de King, provavelmente no dia 9 de março, quando, novamente, em face da polícia estadual, os manifestantes pararam, ajoelharam-se no ponto onde antes haviam sido espancados, e esperaram uma ordem judicial que lhes permitisse marchar de Selma a Montgomery. (N.T.)
[4] “Quartier”, no original, pode-se referir tanto a bairro quanto a quartel. (N.T.)
[5] “Vol”, no original, significa, ao mesmo tempo, vôo e roubo. (N.T.)
[6] O termo potlatch recebeu notoriedade na França e depois se espalhou por outras regiões por meio do antropólogo Marcel Mauss e sua obra “Essai sur le don, forme archaïque de l’échange”, com tradução disponível em língua portuguesa. Georges Bataille, com trabalhos dos quais provavelmente o conceito fora apropriado pelos situacionistas franceses, escreve: “opondo-se à noção artificial de escambo, a forma arcaica da troca foi identificada por Mauss com o nome de potlatch, tomado de empréstimo aos índios do noroeste americano que forneceram o tipo mais notável dessa forma. Instituições análogas ao potlatch indígena, ou seus traços, foram encontradas com bastante freqüência. O potlatch dos Tlingit, dos Haida, dos Tsimshian, dos Kwakiutl da costa noroeste foi estudado com precisão desde o fim do século XIX (embora, naquele então, ainda não fosse comparado com as formas de troca arcaicas dos outros países). Os menos avançados desses povos norte-americanos praticam o potlatch por ocasião das mudanças na situação das pessoas — iniciações, casamentos, funerais — e, mesmo sob uma forma mais evoluída, nunca pode ser separado de uma festa: ou ocasiona esse festa, ou ocorre por ocasião dessa festa. Exclui qualquer regateio e, em geral, é constituído por uma dádiva considerável de riquezas oferecidas ostensivamente com a finalidade de humilhar, de desafiar e de obrigar um rival. O valor de troca da dádiva resulta do fato de que o donatário, para apagar a humilhação e rebater o desafio, deve satisfazer à obrigação — contratada por ele quando da aceitação — de responder posteriormente por uma dádiva mais importante, ou seja, de retribuir com usura. Contudo, a dádiva não é a única forma de potlatch; é também possível desafiar rivais através de destruições espetaculares de riqueza. É por intermédio dessa forma que o potlatch se encontra com o sacrifício religioso, sendo as destruições oferecidas teoricamente a antepassados míticos dos donatários. Em época relativamente recente, ocorria um chefe Tlingit apresentar-se perante seu rival para degolar alguns de seus escravos diante dele. Essa destruição era retribuída em um determinado prazo pela degolação de um número maior de escravos. Os Tchukchi do extremo nordeste siberiano, que conhecem instituições análogas ao potlatch, degolam equipagens de cachorros de valor considerável, a fim de sufocar e humilhar um outro grupo. Lingotes de cobre brasonados, espécie de moedas às quais por vezes se atribui um valor fictício, que constituem imensa fortuna, são quebrados ou jogados ao mar. O delírio próprio da festa associa-se indiferentemente às hecatombes de propriedade e às dádivas acumuladas com a intenção de espantar e de rebaixar.” In: Bataille, A noção de despesa, Rio de Janeiro, Imago, 1975, p. 34-35. (N.T.)
[7] O autor faz um pequeno jogo ao trocar apenas uma letra da palavra “consommation” (consumo) para chegar a “consummation” (consumação). (N.T.)
[8] Manteve-se o neologismo de Debord multiversité em detrimento de outros vocábulos, como pluralidade, pluralismo ou ainda multi-diversidade tendo em vista que multiversidade, além de trazer o sentido de múltiplo, pode contrapor-se à universidade.
[9] Rodésia era o antigo nome dado às possessões britânicas que atualmente formam o Zimbábue e Zâmbia. (N.T.)

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Informações sobre Grupos de Afinidade para a semana de ação StopG8

O texto que se segue é um conjunto de orientações gerais preparado pelos companheiros do grupo Stop G8 para as ações de protesto contra a reunião da cúpula do G8 a ser realizada no luxuoso hotel Lough Erne, localizado no condado de Fermanagh, na Irlanda do Norte. O evento terá apenas dois dias e ainda que especialistas de segurança apontem como pouco provável que algum grupo ultrapasse o forte esquema de segurança montado para proteger os senhores em exercício do capital, desde segunda (10) diversos ativistas no Reino Unido já mostraram que não estão dispostos a apenas segurar cartazes… Sendo assim, a importância do texto está em apresentar os aspectos básicos dos grupos de afinidade, que na perspectiva da auto-organização tem mostrado imensa eficácia em ações que vão desde o simples registro de informações a atividades de caráter mais radical. Para nós, a importância do texto não poderia ser menor, levando em conta que a violência repressiva em todo o mundo, seja por parte da polícia comum ou pelas tropas de choque (antimotins), não se trata de exceção há um bom tempo, mas da regra – ainda que aqui isso tenha ficado evidente de maneira mais clara apenas com a premência do nosso atual contexto de crise.

E cabe ainda mais uma observação, essa ligada mais diretamente ao aspecto teórico. Para além de qualquer confusão que o próprio texto não possa resolver em algumas cabeças, salientamos que não se trata aqui de ensinar o que deve ser feito e como deva ser feito e nem de promover o anarquismo (orientação dos bravos companheiros do Stop G8) como a doutrina ‘mais correta’ do movimento revolucionário. O texto, apesar de se tratar de uma tradução livre, respeita ao máximo o original e os responsáveis pelo blog Autonomia Proletária só podem afirmar que pretendem que esse espaço seja, dentro de suas limitações, um instrumento de convergência de ideias efetivas (baseadas na prática) para o que almejamos – independente da orientação – bem como um veículo de informação das lutas cotidianas. Não interessa, portanto, criticar algum ponto ou tomar esse ou qualquer texto aqui publicado como verdade incontestável, mas sim apresentá-lo(s) numa perspectiva crítica, de onde possamos avançar pela prática nos pontos comprovadamente eficazes e corrigir os aspectos mais frágeis.

Essa observação, que para muitos pode parecer desnecessária, leva em conta o fato de que a diversidade de opiniões foi por vezes prejudicial à historia do próprio movimento revolucionário, com ocasiões inclusive em que as ideias defendidas por orientações diferentes não eram mais conflitantes que o ego de seus líderes. Trata-se, portanto, de tentar minimizar os problemas do sectarismo em prol do objetivo de avançar no fortalecimento do movimento como um todo. Ademais, as lutas, como as ideias que as acompanham, tem caráter transitório (histórico) e faz parte do esforço não apenas colocar a compreensão das lutas anteriores em prática, mas evoluir a compreensão (e a prática) das lutas na medida em que elas próprias evoluem e encontram tanto novas barreiras quanto novos níveis de consciência no que diz respeito a suas possibilidades.

Informações sobre Grupos de Afinidade para a Semana de Ação Stop G8

Uma ação de rua, como o “Carnaval contra o Capitalismo” (Carnival against Capitalism) em 11 de junho, só vai ser tão eficaz se todos fizermos parte. Quanto mais preparado estivermos, mais conseguiremos realizar no dia. Uma boa maneira de se preparar para a ação é a criação de grupos de afinidade que estão planejando trabalhar juntos nas ruas e cujos membros conversaram sobre o evento com antecedência. Gostaríamos de incentivá-lo a vir com um grupo de afinidade, se você tem um. Mas haverá tanto ordenamento público quanto sessões de formação de grupo de afinidade no espaço de convergência para aqueles que não tiverem nenhum.

O que é um grupo de afinidade?

NOTA: Esta é uma visão particular da ideia de um “grupo de afinidade”, e como ele pode ser aplicado em uma ação de rua, com base em um texto de Shaun Ewald (http://shawnewald.info/aia/).

Um grupo de afinidade é um pequeno grupo de 5 a 20 pessoas que trabalham juntas de forma autônoma em ação direta ou em outros projetos. Você pode formar um grupo de afinidade com seus amigos, pessoas de sua comunidade, local de trabalho ou organização. Grupos de afinidade desafiam a tomada de decisão e organização “de cima pra baixo” e capacitam as pessoas envolvidas a tomarem a ação direta criativa. Grupos de afinidade permitem que as pessoas “sejam” a ação que eles querem ver, dando total liberdade e poder de decisão aos envolvidos. Grupos de afinidade são, por natureza, descentralizados e não hierárquicos – dois importantes princípios da ação e organização anarquistas. Em grandes cenários de demonstração como o ‘Carnaval contra o Capitalismo’, grupos de afinidade normalmente planejam estar unidos durante todo o dia.

O modelo de grupo de afinidade foi usado pela primeira vez por anarquistas na Espanha no final do século 19 e início do século 20, e foi reintroduzido pela ação direta radical de ativistas anti-nucleares na década de 1970, que usaram a ação direta descentralizada para bloqueio de estradas, ocupação de espaços e interrupção da “rotina dos negócios” dos fabricantes de armas nucleares e de guerra nos EUA. Os grupos de afinidade tem um longo e interessante passado, devendo muito aos anarquistas e trabalhadores da Espanha e os anarquistas e radicais de hoje, que usam grupos de afinidade, estruturas não-hierárquicas e consenso de decisões na ação direta e organização.

Como iniciar um grupo de afinidade

Um grupo de afinidade poderia ser um relacionamento entre pessoas que dura por anos, como um grupo de amigos e/ou militantes, ou poderia ser uma relação de uma semana em torno de uma única ação. De qualquer maneira, é importante aderir a um grupo de afinidade que seja o mais adequado a você, seus interesses e seus níveis de conforto. Se você está formando um grupo de afinidade em sua cidade, encontre amigos ou colegas ativistas que tenham interesses semelhantes e, portanto, queiram fazer ações similares. Além disso, procure pessoas que estariam dispostas a usar táticas semelhantes – se você quer fazer ações de relativo alto risco, alguém que não quer estar nessa situação pode não querer estar no grupo de afinidade. Essas pessoas poderiam cuidar do trabalho de informação ou médico, mas poderiam não ser a melhor opção se estão completamente desconfortáveis em torno de certas táticas de ação direta.

O que um grupo de afinidade pode fazer

Nada! Eles são, essencialmente, uma forma de você ser mais eficaz durante qualquer ação que você quer tomar. Eles podem ser utilizados para ações de massa ou de menor escala. Grupos de afinidade podem ser usados para estender uma faixa, o bloqueio de uma estrada, fornecer apoio para outros grupos de afinidade, fazer teatro de rua, bloquear o tráfego andando de bicicleta, organizar um tree sit*, mudar a mensagem em um enorme letreiro, tocar em uma banda marcial radical ou cantar em um coro revolucionário, etc.

Também pode haver grupos de afinidade que assumem certas tarefas em uma ação. Por exemplo, pode haver um grupo de afinidade composta por médicos de rua, ou um grupo de afinidade que traz comida e água para as pessoas nas ruas. O que faz com que grupos de afinidade sejam tão eficazes para as ações é que eles podem permanecer criativos e independentes e planejar sua própria ação, sem uma organização ou pessoa ditando-lhes o que pode e não pode ser feito. Assim, há uma quantidade infinita de possibilidades para o que os grupos de afinidade possam fazer.

* = “tree sitting” é uma forma de desobediência civil ambientalista em que um manifestante se senta em uma árvore, geralmente em uma pequena plataforma construída para tal, para protegê-la de ser cortada (especulando que os madeireiros não irão pôr em risco vidas humanas, cortando uma árvore ocupada). Apoiadores costumam fornecer comida e outros suprimentos para os ativistas.

Papéis (ou funções) de grupos de afinidade

Há muitos papéis que se podem adequar possivelmente a um grupo, e cada grupo de afinidade e cada ação serão diferentes. Alguns grupos podem planejar trabalhar juntos durante uma ação nas ruas e alguns grupos podem querer ter seus membros em “papéis de suporte”. Papéis que podem agora ser úteis em um grupo de afinidades incluem:

Médico: Um grupo de afinidade pode querer ter alguém que é um médico de rua treinado que possa lidar com qualquer questão médica ou de saúde durante a ação.

Observador legal: Se já não há observadores em questões legais para uma ação, pode ser importante ter pessoas não envolvidas na ação tomando notas sobre a conduta policial e possíveis violações dos direitos dos ativistas.

Mídia: Se você está fazendo uma ação que planeja atrair a mídia, você pode querer alguém para lidar com isso, enviar um comunicado à imprensa etc.

“Aprisionáveis”: Se você está planejando uma ação potencialmente sujeita a prisão, você precisa saber quem está pronto para ser preso de antemão.

“Parceiros”: Especialmente se seu grupo está planejando fazer uma ação sujeita a prisão, os aprisionáveis podem querer alguém que dê suporte, que esteja com elas até o momento da prisão. Se é uma ação de bloqueio, um “parceiro” pode ser aquele providenciando o suporte de água e bem estar geral/ conforto. Frequentemente, grupos de afinidade têm “duplas de parceiros” entre si, que cuidam um do outro. Isto pode ser especialmente importante em um cenário imprevisível tal como uma investida policial, quando um grupo pode se dividir sem intenção.

Suporte prisional: Se alguém em seu grupo de afinidade for preso, tenha certeza de que alguém está dando apoio prisional para ele(s). Isso pode incluir falar com o advogado, tirá-los da delegacia uma vez liberados etc.

Mais acerca dos “parceiros”

Um grupo de afinidade deve estabelecer seus limites – aprisionável, não-aprisionável, apoio, médicos, jurídico – por exemplo, como discutido acima. Mas o “sistema de parceiros” é o mais importante.

Consideremos que temos um grupo de afinidade de 12. É um bom número. Significa que vocês estão próximos e planejando o que intencionam providenciar, agir, defender, o que quer que seja. Em ações de massa o grupo de afinidade deve permanecer junto não importa o que aconteça. Mas a coisa mais importante é o “sistema de parceiros”. Você concorda em estar com seu parceiro, que o que quer que aconteça você estará com seu parceiro. Se eles forem ao banheiro, você aguarda fora. Se eles querem ir a uma loja comprar suprimentos, você vai com eles. Se seu plano é fazer algum reconhecimento, vocês vão juntos. Se seu parceiro está sob ameaça de ser capturado, você permanece com ele e faz a “contra-prisão”, mesmo que signifique que você caia também.

Seu parceiro tomará conta de você. Você tomará conta dele. É melhor que vocês se conheçam e confiem um no outro.

Um sistema de parceiros forma pares dentro de um grupo de afinidade maior. Assim, mesmo se o grupo de afinidade está dividido, você permanece com seu parceiro. Haverá dois de vocês, e suas chances de superar qualquer situação em potencial é vastamente aumentada, porque há quatro olhos ao invés de dois. É sempre uma boa ideia ter alguém dedicado a você – talvez vocês só tenham arrumado isso na noite anterior – mas trabalhar como parceiros lhe dá chances muito melhores. Isto é sobre confiança e segurança. Essas são nossas mais importantes forças. Pois, estando por conta própria em uma situação problemática, pode-se cometer erros, que podem levar a aborrecimentos. Estar em uma parceria significa que se tem uma segunda opinião. Devemos seguir a multidão? Devemos evitar uma via lateral? Devemos estar com o sistema de som? Onde está a polícia? Há uma tensão se formando? Permanecer com seu parceiro os dá a ambos mais poder para pensar, agir, reagir. Ninguém deve jamais estar à própria sorte. O método de parceria funciona!

Seja criativo e lembre-se: a ação direta colhe seus frutos.

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